Entrevista
EC – Primeiramente, por que desse título do livro: “Ira”?
SOLYEN – Talvez porque seja o título que melhor se adapte ao conteúdo do romance.
EC – Ao que se deve a escolha de lançá-lo nesse formato inovador que é o CD-Rom e não em papel?
SOLYEN – São muitos os fatores. Um deles é a questão de modernizar. Nada é estanque, por isso, o artista não pode parar no tempo. Estamos vivendo a era do computador. É bem mais fácil manter uma criança ou um adolescente durante horas na frente do monitor do que fazê-lo ler meia dúzia de páginas de um livro. Os livros virtuais já são uma febre na Internet. Um outro motivo é a questão de conseguir atingir públicos diferentes com um mesmo material. Acredito que num futuro próximo esse modelo será utilizado em larga escala, pois demanda pouco espaço para guardá-lo, é extremamente higiênico, o que auxilia a diminuir o acúmulo de ácaros, poeira, mofo... Você já leu, ou simplesmente, consultou um livro de cem anos atrás? Certamente, teve uma crise de espirros. Com um material desse tipo isso não ocorre. Existe ainda a questão ambiental, apesar de não ser muito apegada nisso, mas imagine quantas árvores são derrubadas todos os dias para virar papel? E, ainda tenho mais um motivo muito especial. Com um livro neste formato posso atingir, também, um público muito especial, o dos deficientes visuais. Aqui no Brasil não é fácil editar em Braile, os livros ficam muito grandes e com um custo muito alto. Com o recurso de um leitor de textos, a obra poderá ser apreciada por eles e, esse público é muito mais sensível, o que dá mais prazer em trabalhar e saber que as críticas serão mais sinceras e poderão ajudar na melhoria dos próximos trabalhos.
EC – Ao que parece que você gosta de inovar. A questão modernidade, para você é mais importante do que preservar as coisas arcaicas?
SOLYEN – Não é a questão de não preservar o que é antigo, mas o limite. Tem uma música que diz que “o novo sempre vem”. Imagine se São Paulo fosse somente se preocupar em manter tudo de antigo, certamente, não seria a metrópole que é! Ou mesmo, se todas as construções tivessem que manter padrões arcaicos, o que seria de Niemeyer? Devemos manter meia dúzia de coisas antigas para conhecermos o passado, mas modernizar é questão de sobrevivência. Acredito que o ontem se acabou, o hoje está por terminar e, só nos resta investir no amanhã com muitas novidades e utopia. Parar no tempo é o mesmo que regredir e, a humanidade não foi feita para andar para trás.
EC – Você já está aqui em Itanhaém há algum tempo e nós sabemos que esta é uma cidade que tenta preservar sua história, entretanto, raramente você deixa de citar São Paulo como exemplo. Por quê?
SOLYEN – Em primeiro lugar, porque São Paulo é o exemplo do novo e do velho, do feio e do bonito, do rico e do pobre. Os contrastes formam uma tela de inigualável beleza. Quem é que não delira ao olhar as curvas do Copam, as luzes e semáforos da Paulista, os sons misturados da Consolação, a beleza de concreto da Ipiranga com a São João? É uma cidade que provou que o passado e o presente estão de mãos dadas no futuro. Agora, quanto a Itanhaém ser uma cidade apegada às suas raízes eu sou 50% a favor e 50% contra. Acho que alguns pontos devem ser tombados e mantidos para as próximas gerações, mas também sou a favor do contraste de edificações modernas e arrojadas, de altos arranha-céus, da criação de uma área industrial, pois aqui a carência de um mercado de trabalho faz com que muitos dos nossos jovens saiam do local em busca de melhores condições e, nem sempre retornam.
EC – Atualmente você é presidente da Academia Itanhaense de Letras (AIL). Como você vê a questão artística local?
SOLYEN – Existe um imenso material humano. Antes da Academia, eu tive o prazer de trabalhar por quase três anos em Mongaguá e, posso afirmar que tanto lá quanto aqui, o Cara lá de cima foi generoso em distribuir talentos. O que falta é o incentivo. Temos muitos diamantes, alguns precisam ser burilados, outros estão prontos para brilhar nas mais raras jóias. Dentro da AIL há um montante de talentos suficientes para encher prateleiras de livros ou paredes de quadros inebriantes e, até mesmo os ouvidos por acordes sublimes, mas infelizmente, não temos como levar toda essa riqueza artística para a população e quiçá, para levá-la a nível nacional.
EC – E o quê você está fazendo de inovador, já que você gosta tanto de inovar, para a AIL?
SOLYEN – Já ouviu o dizer “uma andorinha só não faz verão”? Pois é, à medida das minhas parcas possibilidades tenho tentado divulgar a AIL da melhor forma possível. E estou empenhada na edição da segunda coletânea, que deve ser lançada no início do segundo semestre deste ano. O material já está sendo preparado e sendo feita a escolha do nome do livro e da capa. Acredito que será um sucesso, pois os participantes são de alto nível.
EC – O seu público, no geral, conhece bem o afeto demasiado que você tem pelo teatro, nessa área virão coisas novas, existem projetos?
SOLYEN – Sim. Só que prefiro não falar agora. No momento em que estiverem mais maduro os frutos eu prometo conversar com o EC.
O Espaço Cultural agradece a atenção dispensada pela escritora. Entrevista concedida em 27 de maio de 2006.